Desvestindo o Look at Me
No dia 01 de outubro do ano passado, aconteceu o TEDxValedosVinhedos. Um evento do qual participei da organização com muito envolvimento e que reservou ótimos momentos de reflexão a respeito da vida, do uso atual do conhecimento e das perspectivas para os futuros possíveis – tema do encontro. Um dos pontos altos foi um oferecimento da Guatemala, já que nasceu lá uma das palestrantes mais bem sucedidas em um dos principais objetivos do evento: provocar a plateia a repensar a configuração de certas racionalidades.
Diretora de Inovação da FIAP (faculdade de tecnologia de SP), Nathalie Trutmann trouxe para a sua instituição uma parceria com a Singularity University, a famosa universidade fundada pelo Ray Kurzweil, apadrinhada pelo Larry Page (Google) e instalada no campus da Nasa, no Vale do Silício. E, com esse currículo todo, ela optou por falar justamente das dispersões em sua trajetória, dos períodos em que estava perdida, em que trocava de emprego e país e em que achou que comprar um veleiro era a solução para as suas angústias. Tudo isso para abordar o que pode ser entendido quase como uma síndrome, que ela chama de “look at me”. É uma fala leve e com um carisma encantador, que só uma mulher com personalidade original para apelidar os dois filhos de Sancho e Pancho poderia ter.
Vale a pena ver o vídeo para entender como ela se deu conta que vestir esta camiseta por tantos anos foi justamente a amarra que alimentava os seus vazios. Para pensar o dilema do “look at me” como um processo onde o medo de nos mostrarmos como realmente somos, o medo do erro, acaba superficializando as nossas vontades, nos levando por caminhos que consideramos os corretos aos olhos alheios, mas que muitas vezes vão ficando bem afastados dos nossos reais interesses. Por focar na dependência do look at me, é muito fácil a gente ir virando uma massa confinada em assujeitamentos que atendem a macro estruturas do certo-normal-adequado e esquecendo dos próprios desejos. De maneiras muito sutis, essa sensação de vigilância permanente do outro sobre nós dociliza e ‘aprimora’ os comportamentos coletivos para atender ao esperado pelos pais, professores, chefes, amigos nas redes sociais. Ninguém quer ser inadequado, levar um xingão do líder porque sugeriu uma mudança nos processos ou ter as publicações menos curtidas da internet. É o medo de errar perante os outros impedindo tentar para si mesmo.
E aí, vem a melhor parte pra mim: a visão da Nathalie sobre o papel da educação em subverter esses processos de confinamento e disciplinarização. Para ela, uma das grandes responsabilidades da educação é possibilitar que os jovens andem como se ninguém estivesse olhando, que se libertem da capa do 'look at me' para procurar seus futuros possíveis e seguir sonhando. Exatamente como o Pancho - não o de Dom Quixote, mas o pequeno dela -, que está aprendendo a andar, levando tombos, levantando e rindo, sem se importar com o olhar dos adultos. ;) São só 17 minutos. Clica no vídeo e te inspira.
