Posterous theme by Cory Watilo

danimiranda

danimiranda

Interessada em operações culturais. Comunicação/UFRGS. Organizadora dos TEDx: Porto Alegre (2010), Vale dos Vinhedos e FIAP (2011). Encantamento por quem atreve-se a singularizar, pelo que mistura agenciamentos de cultura - erudita ou batidão. gosto da aprendizagem de desaprender.

Desvestindo o Look at Me

No dia 01 de outubro do ano passado, aconteceu o TEDxValedosVinhedos. Um evento do qual participei da organização com muito envolvimento e que reservou ótimos momentos de reflexão a respeito da vida, do uso atual do conhecimento e das perspectivas para os futuros possíveis – tema do encontro. Um dos pontos altos foi um oferecimento da Guatemala, já que nasceu lá uma das palestrantes mais bem sucedidas em um dos principais objetivos do evento: provocar a plateia a repensar a configuração de certas racionalidades.

 

Diretora de Inovação da FIAP (faculdade de tecnologia de SP), Nathalie Trutmann trouxe para a sua instituição uma parceria com a Singularity University, a famosa universidade fundada pelo Ray Kurzweil, apadrinhada pelo Larry Page (Google) e instalada no campus da Nasa, no Vale do Silício. E, com esse currículo todo, ela optou por falar justamente das dispersões em sua trajetória, dos períodos em que estava perdida, em que trocava de emprego e país e em que achou que comprar um veleiro era a solução para as suas angústias. Tudo isso para abordar o que pode ser entendido quase como uma síndrome, que ela chama de “look at me”. É uma fala leve e com um carisma encantador, que só uma mulher com personalidade original para apelidar os dois filhos de Sancho e Pancho poderia ter.

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Vale a pena ver o vídeo para entender como ela se deu conta que vestir esta camiseta por tantos anos foi justamente a amarra que alimentava os seus vazios. Para pensar o dilema do “look at me” como um processo onde o medo de nos mostrarmos como realmente somos, o medo do erro, acaba superficializando as nossas vontades, nos levando por caminhos que consideramos os corretos aos olhos alheios, mas que muitas vezes vão ficando bem afastados dos nossos reais interesses. Por focar na dependência do look at me, é muito fácil a gente ir virando uma massa confinada em assujeitamentos que atendem a macro estruturas do certo-normal-adequado e esquecendo dos próprios desejos. De maneiras muito sutis, essa sensação de vigilância permanente do outro sobre nós dociliza e ‘aprimora’ os comportamentos coletivos para atender ao esperado pelos pais, professores, chefes, amigos nas redes sociais. Ninguém quer ser inadequado, levar um xingão do líder porque sugeriu uma mudança nos processos ou ter as publicações menos curtidas da internet. É o medo de errar perante os outros impedindo tentar para si mesmo.

E aí, vem a melhor parte pra mim: a visão da Nathalie sobre o papel da educação em subverter esses processos de confinamento e disciplinarização. Para ela, uma das grandes responsabilidades da educação é possibilitar que os jovens andem como se ninguém estivesse olhando, que se libertem da capa do 'look at me' para procurar seus futuros possíveis e seguir sonhando. Exatamente como o Pancho - não o de Dom Quixote, mas o pequeno dela -, que está aprendendo a andar, levando tombos, levantando e rindo, sem se importar com o olhar dos adultos. ;) São só 17 minutos. Clica no vídeo e te inspira. 

 

 

 

Quem tem medo da orkutização? Com quantos quilos de medo se faz uma tradição?

Já tava achando desmedida a pequeneza da discussão dessa semana sobre a ‘orkutização do instagram’ até que hoje fiquei sabendo que a reclamação do dia mudou e, grandes problemas internacionais atuais:  agora a crise é a ‘orkutização do Starbucks”.

A quantidade de vezes que eu li esse vocábulo mais horroroso da história do Brasil nos últimos dias (a tal “orkutização”) me lembrou de uma questão da mesma ordem de preconceito que vi no mês passado, quando foi inaugurada a infraestrutura de rede sem fio que promete cobertura de internet gratuita para todo complexo do Alemão – periferia do Rio de Janeiro -  até julho desse ano. Notícia que gerou o mesmo medo de ‘orkutização’, mas que, como as críticas atingiam um público cuja boa parcela nem usuária do android ou de café consumido pra ser fotogrado talvez seja, acabou repercutindo bem menos.

           Sem entrar em questões políticas ou de cunho técnico sobre o projeto do wi-fi no Alemão, o meu espantamento – que, infelizmente, não vem acompanhado exatamente de surpresa – com a notícia não vem dela em si, mas dos comentários deixados pelos leitores na matéria. No link acima dá pra ver todos, mas selecionei alguns que ilustram bem como quilos de medo, preconceitos e intolerância (assim, nesse nosso jeitinho displicente e camuflado) vão, como sugeriu Tom Zé, formando uma tradição. 

        Uma tradição que começa com práticas veladas, se esconde no sarcasmo e vai preenchendo os imaginários sociais. Por exemplo, no comentário abaixo:

Comentrio_sarcasmo

        Claro, sarcasmo.  Porém, é facilmente perceptível o quanto este “sarcasmo” está  baseado em símbolos de estigma que constituem e/ou reforçam conceitos de identidade associados aos moradores de locais como o Complexo de Alemão e outras regiões periféricas. Na minha monografia, falei de como a identidade e a diferença não são, nunca, inocentes. São sempre resultado de processos e relações amplas de poder, onde a demarcação de diferenças vem muitas vezes acompanhada da anulação da multiplicidade de indivíduos para a sua estereotipização. A "maldita inclusão digital e a orkutização" vem exatamente nessa linha, no reforço do estigma, do preconceito, de uma separação que pretende manter mais "puro" e "erudito" esse restrito clube selecionado dos que têm direito ao acesso à informação.

Mas aí, pra não ser injusta, além do 'sarcasmo", há quem busque o argumento (?!). “Já não pagam impostos, água ou luz...”; “Isso é incentivo à vagabundagem”; “Eu e você estamos pagando para eles usarem de graça”; “... “se orgulham de viver no meio do esgoto e da miséria” são alguns dos "argumentos" utilizados lá nos comentários. Ó mais uma tradição: a do equívoco do mito de que pobre não paga imposto. Segundo pesquisa  do ano passado do IPEA – Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada – no Brasil, enquanto pessoas cuja renda mensal familiar alcançava até dois salários mínimos comprometiam 53,9% de seus ganhos com o pagamento de tributos, famílias com renda superior a 30 salários mínimos, comprometiam 29%. Porém, o atributo que estigmatiza alguém, confirma a normalidade ou positividade de outrem e, assim, vai se mantendo a prática da vitimização e do distanciamento: “estamos pagando tudo para eles (esses orkutizadores e praticantes de arrastão) usarem de graça”. Como se 53,9% fosse de graça em alguma equação do universo...

              Só essa amostra dos comentários na matéria já me parece suficiente pra pensar em como conceitos como “orkutização” vão sendo forjados na nossa realidade. Um dos leitores expressa a sua preocupação na matéria do Alemão: “só torçam para que bloqueiem o facebook desses usuários”. Mesma linha de pensamento de quem acha que pode reclamar de um segmento novo usando instagram. Em defesa de uma superioridade, de uma manutenção do ‘mais culto’, cai-se nas mais feias das segregações. O livro que estou lendo agora, do Michel de Certeau (2011), permeia diversos campos de saber – história, filosofia, psicanálise – para defender que uma narrativa que pretende narrar o real, na verdade, o fabrica. E que essas narrativas fabricadas ao produzirem crentes, produzem praticantes – e aqui o perigo dos “praticantes” do facebook contra a orkutização, dos veganos contra quem consome carne, dos fãs de Woody Allen contra quem assiste BBB. O Certeau leva a questão da historicidade da narração para a psicanálise e defende que um discurso histórico ou político narrados por um sujeito é também a defesa das representações que criam o seu teatro de referências e valores comuns. “A narração desvaloriza ou privilegia práticas, exagera a dimensão dos conflitos, inflama nacionalismos ou racismos, organiza ou desencadeia comportamentos. (Certeau, 2011, p. 53)

                Assim, o que vejo é que estamos escolhendo uma narrativa histórica que opta pela disseminação de conceitos carregados de intolerância e noções preventivas em relação a determinados grupos (cuidado! – eles fazem arrastão / cuidado! - vão estragar as suas fotos em sépia). E, assim, vamos criando o que o autor do livro chama de uma “encenação verossímil do real”, ocultando parte do sistema social que nos reproduz. Para o autor, os gestos que circunscrevem e fundam tradições – e aqui eu estendo para tradições como a do medo das periferias, como a da falácia dos impostos, como a da reclamação da orkutização – são sempre cortes pelo quais se expressam poderes.  Cabe a todos pensar o quanto concordamos com esses encaixes normativos, com essas relações de pregação de uma suposta superioridade e poder que condenam o acesso e a democratização – da internet, do aplicativo, do kit kat, do café - e quem sabe, fazer um esforço para perceber o quanto esse tipo de comportamento mobiliza o gesto de pensar livremente, prestando uma grande e atrasada homenagem à ordem conservadora e à segregação.

 

 

¹ O livro citado é o "História e Psicanálise: entre ciência e ficção", do Michel de Certeau, presente bem escolhido do @doug_ritter. Indico para quem se interessar pelo intercâmbio de conceitos sobre história, ficção e análise de relações de poder.

 

(download)

01 conselho: transmissão de saber

Essa semana acho que encontrei o elemento que amarra meu tema de mono, as profundas referências que ficaram comigo do tempo de trabalho e voluntariado na Junior Achievement e o meu envolvimento com a organização de TEDx: a sensação de encantamento que me dá conhecer gente que, através da disseminação de cultura e conhecimento, trabalha para empoderar pessoas.

Em parte, isso vem pelo que ando lendo para os meus escritos acadêmicos, em parte porque faltam duas semanas para o TEDxValedosVinhedos e tenho visitado os nossos palestrantes para alinhar suas apresentações. Nessas visitas, ando ouvindo gente que contempla muito, mas age mais. E, além de admiração, esses encontros tem me despertado a reflexão sobre as formas como podemos redimensionar velhas relações para, dividindo conhecimento, reestruturar as relações de poder ao nosso redor e como todo mundo, todo mundo mesmo, pode fazer a sua parte.

Pode ser uma professora de química que decide ensinar uma comunidade a proteger suas casas com caixas de leite como isolantes térmicos, pode ser um programador que se dedica a trabalhar desenvolvendo softwares que proponham envolver as pessoas em soluções de engajamento e inovação social, um professor de desenvolvimento de games que compra a briga para tentar fazer o ministério da educação compreender que tecnologia é aliada do aprendizado, talvez três amigos que dão espaço para porto alegrenses dizerem o que #poaprecisa, de repente é aquele cara que abre uma petição online, ou o que capacita jovens sobre empreendedorismo (meu carinho aqui pela causa da Junior Achievement - @jrachievementrs) nas horas vagas. (Pode também ser gente que compartilha a noção de que pessoas estimuladas são, sim, pessoas mais poderosas e resolve organizar TEDx- e aqui meu agradecimento e admiração por esses parceiros). Em todos os casos, é gente que transfere saber, numa relação sempre correlata à transmissão de poder. Tornar alguém capaz de proteger a própria casa, viabilizar projetos engajadores ou despertar o espírito empreendedor em jovens alunos, é tornar essas pessoas mais conscientes de suas habilidades, melhorar a sua autoestima e o seu potencial de transformação. 

Pouca coisa é mais estimulante do que encontrar por aí esses exemplos de pessoas comuns, tão de carne e osso quanto a gente, que não revolucionaram mapas, não descobriram um planeta novo ou a vacina definitiva contra o câncer, mas que, dentro das suas áreas de atuação e de interesse, realizam projetos cuja relevância dissemina modelos de comportamento mais benéficos, ressignifica valores e abre espaço para atuação de pessoas agregadoras. O legal é ir percebendo que essa é uma mudança gradual de modelo mental que traduz um comportamento mais pró-ativo, que reordena discursos centralizantes em relação a hierarquias e encoraja o compartilhamento, a aproximação com o outro e a transmissão de conhecimento. Encorajar pessoas a expressar-se, como no caso do #poaprecisa, ou a tocar e criar condições para seus projetos, como no caso do @catarse_, por exemplo, já é empoderá-las.

A gente reclama demais, xinga os revolucionários de twitter e não vai além. Fechamos os olhos para o monte de possibilidades que já existem por aí de fazer a diferença. Ou para o que ainda podemos criar pela frente. Se cada um de nós é sempre possibilidade, o peso do compartilhamento é algo que vai além da nossa capacidade de previsão. Tem uma causa? Capacita parceiros e investe nela. E nem falo apenas de causas voluntárias. Não há mal em rentabilizar bons projetos. Muito melhor se nossos trabalhos, além de fonte de renda, também puderem ser projetos com propósito. Tem um conhecimento? Não retém. Olha o outro não como concorrente, mas como multiplicador. Já tem muita gente seguindo esse caminho e vendo dar certo.

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ps: referência necessária: texto claramente influenciado pelas leituras de Foucault para pensar em empoderamento relacionado a conhecimento.  

a) Tem que mudar. b) Tem que evoluir. c) Tem que agregar.

Com o título “Mudança lenta, gradual e injusta”, Tory Oliveira trouxe um alerta na Carta Capital da semana passada pra um dado que eu desconhecia: em 2011, o vestibular completa seu centenário. O Brasil tem pouco mais de 500 anos; o exame vestibular, tornado obrigatório em lei de 5/4/1911, já tem 100.

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Dez décadas e ainda temos um sistema de avaliação para o ingresso em cursos superiores que orienta o ensino para repetição e normalização, para, na linha de entrada, nos diferenciar. Cem anos e permanece como um método que incentiva um ensino condicionado a disciplinas desconectadas e decorebas repetitivas. A exigência de domínio de um elevado volume de informações é obrigatória para todos, mas distante para a maioria. Aqui, começa a partilha.

Temos um sistema que nega o que oferece: grandes universidades? Possibilidade de construção de uma sólida carreira? Discussão a níveis elevados em um ambiente acadêmico? Não para todos, lei do mercado. Um sistema que, como diz o Eduardo Galeano, desvincula contextos históricos e que clama que pobreza é o justo castigo que a ineficiência merece. E, de tanto sermos expostos a este discurso, vai-se achando normal a divisão. Esquecendo-se que é gritante as diferenças entre colégios públicos, particulares e o bem sucedido maquinário da indústria da entrada para a graduação: os cursinhos pré-vestibulares.

 Não é à toa que, como consta na matéria de Tory Oliveira, no Brasil, “o fator socioeconômico acrescenta um elemento de injustiça à fórmula do vestibular”. Aí complica pregar “meritocracia”, esquecendo-se dessas nossas dessimetrias. É verdade que a queda das desigualdades vem acontecendo – segundo o censo do IBGE de 2010, o atual Brasil é um país que vive mais, com uma classe média que cresce rápido e menos analfabetos. Mas, enquanto o Brasil ainda mantiver as inconsistências de uma “Belíndia”, termo que o economista Edmar Bacha – presidente no BNDES nos anos 70 – utilizava para se referir a um país onde uma minoria consome como os ricos da Bélgica, enquanto uma maioria vive como os pobres da Índia, o vestibular permanece como uma incisão no processo de socialização.

Evidente que a gênese do problema não está no vestibular, é muito anterior. Insistimos em tratar como iguais aqueles que recebem pontos de partida e oportunidade tão diferentes. Cresce, sim, o percentual da população com acesso a mais dinheiro e melhores escolas. A questão é pensar no grupo que não faz parte dessa fatia – que não vai freqüentar escolas particulares, tão pouco cursinhos pré-vestibular. Podemos estar caminhando para uma “diminuição” do número de marginalizados no país (imagine se não diminuísse, já que ainda são 44 milhões no Brasil), mas talvez ao custo de uma verticalização dessa marginalização, ainda mais densa e profunda para os que não pertencem ao sistema. Ignorar o potencial que existe em 44 milhões de pessoas é negação do distante, é desperdício do melhor capital já inventado: o humano. Levamos 100 anos para começarmos a engatinhar mudanças no vestibular. Dá medo pensar em quantos outros centenários ainda vamos levar para efetivar mudanças educacionais mais profundas. Marquem na grade: a resposta lá em cima não é a, b ou c. É (d) – de todas as alternativas anteriores. E tem que ser pra ontem.

Filtros customizados e as histórias únicas

Há uns dias um amigo contou que para desenvolver sua dissertação de mestrado está acompanhando uma turma, em uma escola referência de inclusão em Porto Alegre, onde dos mais ou menos 30 alunos, 12 são moradores de abrigos, quase dez possuem algum tipo de deficiência mental leve e mais um número considerável vem de históricos de violência familiar/abuso sexual. Eu tava num bar e a cerveja não desceu redonda com esses dados. Mas, naquele momento, acho que o que mais me impressionou foi o meu próprio espanto ao ser aproximada de um mundo tão diferente. Onde eu tava que não parei pra pensar que essas crianças também vão à escola?

Eaí, fiz a conexão desse meu afastamento da realidade com esse bom texto que li da  Sue Halpern, onde ela aborda a fusão do sistema nervoso humano ao computador e questiona até que ponto estamos caminhando para um futuro onde o cérebro ainda é o nosso controlador. Nesse ponto, ela toma como referência Eli Pariser e o seu livro O filtro-bolha: o que a internet está escondendo de você para tratar da cilada dos filtros das buscas personalizadas dos nossos feeds do Facebook ou pesquisas no Google. Tão presentes em nosso dia-a-dia, o Facebook e o Google acabam fazendo uma edição própria do conteúdo que chega até nós pela web. De acordo com Pariser, mesmo que não estejamos logados, o Google analisa 57 sinais – que incluem nosso histórico de pesquisas, localização, navegador e tipo de computador utilizados, por exemplo – para filtrar os resultados de busca. Com o Facebook, o processo é ainda mais restritivo já que o EdgeRank, o algoritmo que atribui popularidade às páginas e perfis da rede, determina as notícias mais relevantes para cada usuário de acordo com as páginas que ele mais interage – comenta, curte, acessa. Aí, não é difícil pensar que um liberal em pouco tempo deixe de receber conteúdo conservador, né? E isso é bom? Lógico que não.

Então, o que a internet está escondendo de você?

Pariser conta nesta apresentação do TED 2011 que ao realizar a experiência de pedir a dois amigos com perfis bem diferentes para “googlarem” a palavra Egito, enquanto um obteve todos os principais links relacionados aos manifestos políticos do início deste ano, outro recebeu diversas dicas turísticas. Conseqüência da busca customizada de acordo com nossas preferências. No livro, existem outros exemplos, como o sobre a temática da guerra no Afeganistão. O autor comenta que esse é o tipo de link não bem sucedido no Facebook, já que o mecanismo de transmissão de informações do canal se dá pelo botão ‘like’. E faz todo sentido concordar com Pariser quando ele fala que é muito mais fácil clicar ‘like’ em “esse bolo ficou incrível” do que em “Guerra no Afeganistão entra no 10º ano”. Eaí, são essas as notícias que somem entre as consideradas menos relevantes pra gente.

Tecnicamente, são dois gigantes utilizando sua enorme quantidade de dados coletados para aprimorar seus algoritmos com bases de referências tão profundas que lhes permitem distinguir nossas intenções de pesquisa. Serviços valiosos em épocas de tempo escasso para o emaranhado de links da internet? Até pode ser. Mas tem os seus impactos negativos também. Ao excluir – e o mais agravante, numa edição “invisível” – os conteúdos que não pertencem aos nossos preferidos, nossos grandes gurus do conhecimento nos privam de informações que podem não ser as mais alinhadas com nosso pensamento, mas que, justamente por isso, são provavelmente as que mais nos desafiam a revisar conceitos e ampliar nosso entendimento de mundo. Entra-se, então, em um campo problemático: estamos formando uma geração que peca pela eliminação da contradição, que pouco a pouco pode se perder na miragem em que se contempla, afastando nuances minoritárias e contrapontos. É um loop infinito de informação tendenciosamente fragmentada e incompleta. 

“Toda forma de saber corresponde a um poder”

Mas é claro que como quase todos da minha geração, sou super pró-Google e uso a ferramenta diversas vezes por dia. De forma nenhuma esse é um post alarmista ou contra sistemas de busca ou facebook. A questão é que eu acredito fortemente na frasezinha do Michel Foucault em negrito acima, sobre saber e poder. E se todo saber é válido, a reflexão é sobre o nosso comportamento em relação aos filtros-bolha que podem estreitar nossa visão de mundo. Lembrar deles já é um começo. A internet é uma plataforma imensa de armazenamento de conhecimentos, conteúdos, oportunidade. A gente pode escolher usar isso para gerar uma sociedade que pensa de modo menos entediante e uniforme. Dá pra ir além do eco das nossas próprias opiniões e não nos reterritorializarmos só em cima do que já gostamos e conhecemos. O ponto é perceber esses jogos e não se deixar cair na cegueira de um confinamento de informações condicionadas. A gente pode, sim, fugir do perigo de uma história única. E o problema aqui não é que a história única seja mentira. É que ela seja incompleta.  

Enquanto não mudar o mundo... one ted a day.

Eu ia compartilhar só pelo twitter. Mas aí quatro motivos me deixaram com muita vontade de registrar a dica aqui. 1) a idéia envolve o TED e todo meu apreço pela causa. 2) é mais um dos projetos paralelos (e transversais e oblíquos e o que mais se imaginar) que tem assinatura do @lucianohbraga, um cara que me dá a honra de me chamar desde 2006 de dinda por ser meu afilhado no curso da fabico. 3) ainda oferece – ao custo de um clique e uma média de 18 minutos – um verdadeiro relicário em termos de conteúdo e inspiração.

Então, para quem quiser um link que vale a pena ser acessado todos os dias, meu conselho é: clica em http://onetedaday.tumblr.com/ e te inspira.

E, no final, o quarto e maior motivo, que veio de uma conversa de msn minha hoje com o mesmo @lucianohbraga aí de cima. Quando falávamos do one ted a day, eu disse ‘bah, tu não para, lu’. E a resposta que tive foi ‘enquanto não mudar o mundo, não paro’. Se o projeto surge com essa mentalidade [que, pra mim, é aquela mesma que eu citei nesse texto aqui falando sobre ted e ‘a capacidade da loucura como sintoma infalível da boa saúde’], 140 caracteres é pouco mesmo para compartilhar. 140 posts ainda seriam.

Sucesso pro tumblr :) 

Todo mal começa com 15 volts.

Só para não passar desapercebido: na mesma semana em que deputados federais vaiaram o anúncio da morte dos extrativistas José Cláudio Ribeiro da Silva e Maria do Espírito Santo da Silva, em plena Câmara dos Deputados, e pouco ou quase nada se falou na imprensa tradicional sobre esse gesto de tanta cordialidade e etiqueta dos nossos parlamentares, o nosso Ministério Público Militar está recebendo um ‘relevante’ inquérito para análise: o dos guris de Dom Pedrito dançando o hino em ritmo de funk, que todo mundo já viu, e que pode render 2 anos (!) de detenção por prática de ato de ultraje a símbolo nacional.

Eaí, é como o diz o Eduardo Galeano: escola do mundo ao avesso. Ultraje a símbolo nacional? Pra mim, símbolo do Brasil deveria ser a sua gente, ainda mais aquela que pertence ao grupo dos que lutam por uma melhoria efetiva nesse país e não apenas um canto cívico. Nos ocupássemos da nossa desrespeitosa bancada de deputados que deixa para população um (des-)exemplo muito mais deselegante e vergonho e estaríamos fazendo mais pelo país. É porque a gente flexibiliza tanto as nossas bases de moralidade de acordo com conveniências tão atrasadas, porque a gente gasta tempo ensinando crianças que é um pecado muito grande bater palma depois do hino e nenhum tempo incentivando-as a pensar nesses pequenos truques que criminalizam os indivíduos e não os modelos, que certas barbaridades [como as agressivas vaias, não o inofensivo funk] se perpetuam.

Quando o (mau) exemplo vem de quem menos deveria e de quem possui o poder legitimado para tomar decisões que ditam o rumo do país, aí sim é caso de cadeia, na minha concepção. Deputados que vaiam uma notícia sobre a morte de dois brasileiros, e não consigo pensar diferente, no mínimo estão propensos a atitudes ainda mais imorais. Pensar nisso, associado também ao fato de que José Claudio recentemente havia se apresentado no TEDxAmazonia, me fez lembrar do ted talk abaixo, em que Philip Zimbardo diz que 'o mal é o exercício do poder' e que, num exemplo que para quem assistir ao vídeo vai fazer sentido, 'todo mal começa com 15 volts'. Concordo ipsis litteris: 15 volts pode ser o caminho entre uma árvore derrubada e o rastro de sangue deixado no chão. 

 

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Quando vi o vídeo pela primeira vez, duas frases do Zimbardo haviam se sobressaído para mim: ‘para ser um herói, você tem que aprender a ser um divergente’ e que ‘heróis são pessoas comuns cujas ações sociais são extraordinárias’. Belo acaso - em triste circunstância, é óbvio - poder tomá-las emprestadas agora, pois eu não encontraria melhores palavras para definir gente como José Claudio e Maria Espírito Santo.  

É que narciso acha feio o que não é espelho

Palavras são ferramentas que nem sempre se apóiam apenas na transmissão de informações. Toda linguagem é definida por um conjunto de pressupostos simbólicos, e ela não costuma ser utilizada apenas em função do ato que comunica, mas também de agenciamentos de interesses, coletivos ou não. O Gilles Deleuze e o Félix Guattari, autores com quem estou casada até um dia - quem sabe - terminar a monografia, dizem que a máquina do ensino obrigatório não comunica informações, mas impõe às crianças coordenadas que ensinam a linguagem não como algo para que se acredite, mas como algo para obedecer e fazer obedecer.

Acontece que concordo e acho que enraizamos a níveis perigosos esses processos. Chegamos a um ponto em que naturalizamos a distorção de informações e já perdemos a capacidade de deixar que isso nos toque de alguma forma, em especial se a distorção ocorre sobre aquilo que não nos rodeia, que não nos reflete. No último dia 17, chegou até mim pelo @igornatusch o link de uma matéria da Rádio Guaíba com a chamada “Mais de três mil agricultores devem complicar acesso à Capital, na manhã desta quarta”. Me irritei com a ausência de pudores em transferir um tema que é de ordem política e social para focar exclusivamente no problema causado no trânsito (3 dos 4 parágrafos fazem isso). E levei minha irritação para discussão offline. Só que o retorno que tive foi o de que ‘E não é isso mesmo?’, ‘Pra que trancar as entradas da cidade?’, ‘Dani, tu anda de carro e não é agricultora’, ‘Estão avisando sobre uma sacanagem que atinge quem não tem nada a ver’.

E eu sou mesmo prolixa, mas é aí que eu queria chegar. Porque este caso foi apenas um exemplo escolhido e não, este não é um post sobre reforma agrária. É sobre empatia.Ou sobre a perda dela. Não estou entrando no mérito de ser certo ou errado o transtorno causado no trânsito – isso é outro papo. Mas me impressiono que a nossa mesma sociedade que tanto se vangloria de pertencer à era da superinformação, não consiga usar todo o conhecimento disponível para fazer conexões quando isso envolve problemas que ultrapassam o portão do seu condomínio. Então tudo bem um veículo de comunicação escrever 20 linhas sobre uma manifestação legítima com uma abordagem tão claramente distorcida? Porque poderiam inclusive se posicionar abertamente contra a marcha da Via Campesina, mas seria mais honesto que isso fosse feito a partir de argumentos sobre as reivindicações da manifestação e não com o subterfúgio do transtorno aos motoristas. Tudo bem então em sabermos que estão nos vendendo uma informação defasada e acreditarmos que isso é mesmo normal? Tudo bem porque eu não sou agricultora? Sim, tudo bem: afasto o que não conheço. Eaí funciona, afinal estão defendendo nosso sagrado direito ao uso do automóvel e minimizando uma questão social que não nos atinge [diretamente]. Agora, faz uma chamada dizendo que ‘Mais de três mil comemoram silêncio na Independência durante fechamento do Beco’ pra ver a gritaria. É dessa nossa capacidade de distanciamento seletivo que eu falo.

E vivo me repetindo e dizendo que acho que empatia melhora o mundo. As tribos africanas abaixo do Saara ensinam: uma pessoa se torna uma pessoa por causa das outras – o que, pra quem prefere uma filosofia mais tradicional, é o mesmo que Sartre. E é por isso que me entristeço por ver como comemoramos que estão todos conectados, que o crowdsourcing chegou para mudar tudo e que a humanidade agora é tão colaborativa e, ao mesmo tempo, ainda não conseguimos nos tocar com aquilo que não ‘temos nada a ver’, mas que, sim, é das coisas humanas. Me parece que isso deveria ser suficiente. Enquanto ainda não é, para finalizar com uma mensagem positiva, deixo um vídeo muito bem produzido para a Anistia Internacional simbolizando o papel de cada assinatura em suas petições como uma possível luz para aqueles que vivem à margem dos direitos humanos. Às vezes é uma assinatura, às vezes uma passeata de bicicleta, pode ser uma marcha que pára o trânsito. Talvez um blog, ou um email cobrando o deputado em que você votou. A mensagem que o vídeo deixa é que, através das assinaturas, todo mundo pode fazer brilhar uma luz para os direitos humanos – e para tantas outras causas que podemos abraçar. A mensagem que eu queria deixar é que é isso mesmo e que a gente pode tentar principalmente com causas que não necessariamente reflitam o que vemos no espelho.  

Ilumine os direitos humanos - Anistia Internacional.

[primeiro post dedicado a pessoas de rara capacidade de empatia que tenho a sorte de serem os incentivadores do blog: @marianarrpp, @doug_ritter, @mouracinara]